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terça-feira, 16 de junho de 2009

VIDA E MORTE DO CINEMA SILENCIOSO


Cinema mudo ou silencioso?

Para começar uma pequena discussão que preceda o início das nossas atividades no curso (esquente), algumas palavrinhas sobre este misterioso módulo do cinema antigo. Em primeiro lugar, por que chamá-lo de “silencioso” e não “mudo”, como estamos já habituados? Bem, a princípio para haver uma unificação com a terminologia de língua inglesa (silent film), que é o lócus que intensifica cada vez mais os estudos deste cinema. Os franceses, mais conservadores (e ainda preservando o velho charme), ainda gostam da terminologia popular (cinéma muet), mas é principalmente com estudos de historiadores americanos como David Bordwell, Charles Musser e Eileen Bowser que este nicho dos estudos de cinema avança enormemente. O problema terminológico é um tanto bobo. Eu mesmo gosto da simpatia chauvinista pela termo “mudo”. A justificativa dada é que estes filmes são silenciosos (questionável, como veremos quando abordarmos o som no cinema mudo), mas dizem algo, não são mudos. Ora, as pessoas mudas também são, hm, digamos, silenciosas, mas também dizem coisas perfeitamente, não é? Mesmo assim, fiquemos com a elegância do termo silencioso, já que ele introjeta bem a ideia de que este cinema, hoje um tanto esquecido, ainda possui uma massiva, porém sub-reptícia, influência sobre o cinema contemporâneo. Se pegarmos o nosso cinema de hoje, é fácil vislumbrar a influência de Eisenstein em Walter Salles (Abril Despedaçado) ou de Carl T. Dreyer em Luís Fernando Carvalho (Lavoura Arcaica, A Pedra do Reino).

A poética silenciosa

Bem, é de comum acordo entre pesquisadores da tela silenciosa que este cinema é radicalmente diferente dos talkies (como foram chamados, à época do surgimento do som sincronizado – circa 1927 –, os filmes falados). O grande humanista Saulo Pereira de Mello chegou a me dizer que se tratam de artes diferentes. Em certo aspecto, é uma opinião fortemente respeitável. Tenho um palpite de que o silêncio destes filmes silenciosos nos reconduz a uma relação diferente com a imagem projetada, a imagem recortada, a imagem pura e espectral. Há um clássico (e um tanto em desuso) termo cunhado por Louis Delluc, a fotogenia, que sublima nossas inquietações em relação à imagem em si. Não se pode explicar o arrebatamento que a imagem pura nos provoca; ela apenas enche os olhos, se infiltra pelos poros. Quando recortamos um “pedaço de realidade” e o transferimos para uma película projetada numa tela, essa “realidade” se duplica, e essa duplicação (eu poderia dar uma viajada na psicanálise lacaniana, mas vou me abster disso) nos provoca esse arrepio, esse arrebatamento. O código frouxo da montagem, as associações livres que fazemos (reflexão tão bem erigida por Eisenstein ao longo de décadas), nos permitem fazer esse mergulho no mundo; no mundo capturado, um mundo em cativeiro, de impressões e curiosidades intermináveis. Esse código fluido e difuso das imagens (por que vocês acham que o cinema mudo foi tão hospitaleiro com a vanguarda, o experimental e o abstrato?), quando atravessado por um código invasor – o código da língua, do diálogo, das palavras – é deixado para trás em prol de uma visão mais organizadora e racional do mundo. Esse encanto da imagem pura, do fluxo e do infinito cede passagem a uma ordenação natural da narrativa; uma ordenação que diz mais à parte de nós que pensa com palavras do que àquela que pensa com imagens. Nasce o cinema clássico, com seus musicais e comédias amalucadas. Nesse sentido, concordando com Saulo, os talkies mataram uma arte e criaram outra. Não seria a última morte do cinema, mas certamente foi a de mais penoso luto.

Ciro I. Marcondes

Para ilustrar, deixo aqui um fabuloso trecho de "A última gargalhada", de Murnau, filme concebido inteiramente sem palavras, letreiros ou inter-títulos.




quarta-feira, 27 de maio de 2009

FASES, MÓDULOS E PROFESSORES

Fase 1 – junho/julho

Módulo 1 – Cinema Silencioso: investigará desde o chamado “cinema das origens”, no séc. XIX, até as grandes transformações operadas por cineastas revolucionários como Griffith, Eisenstein e Murnau, procurando entender a natureza própria da tela silenciosa.

Datas: 24/06, 01/07, 08/07, 15/07, 22/07, 29/07.
Período: 14-18h. Quarta à tarde, durante 6 semanas.

Professor: Ciro I. Marcondes é crítico e professor de Cinema pelo Unicesp (DF), e mestre em Literatura pela UnB. Traduziu a “A Narrativa Cinematográfica”, de Jost e Gaudreault. Publicou em sites como Cinequanon, Candango e SenhorF, e nas revistas Jungle Drums e Cerrados.

Módulo 2 – Cinema Contemporâneo: como o cinema de hoje procura alternativas para decodificar as complexas realidades nas quais estamos inseridos. Desde os filmes de super-heróis em Hollywood até os radicalismos estéticos do novo cinema oriental.

Datas: 25/06, 02/07, 09/07, 16/07, 23/07, 30/07.
Período: 14-18h. Quinta à tarde, durante 6 semanas.

Professor: Pablo Gonçalo é mestre em Comunicação pela UnB e professor de Cinema do IESB. Crítico de cinema, publicou no Correio Braziliense, Contracampo, Menemocine e Candango. É também diretor de cinema e foi curador da mostra Memórias do Subdesenvolvimento.

Módulo 3 – Documentário Clássico: a linguagem documental desde seus primórdios até a consolidação do padrão clássico, ordinal e referencial.

Datas: 01/07, 08/07, 15/07, 22/07.
Período: 8-12h. Quarta pela manhã, durante 4 semanas.

Professor: José Geraldo é formado em Cinema e mestrando em Comunicação, na linha de pesquisa Imagem e Som. Produziu vários curtas-metragens e outros produtos audiovisuais e escreveu, dirigiu e montou seu primeiro documentário – “Oiticica” - em 2005.

Módulo 4 – Poéticas Contemporâneas: como a videoarte e o cinema experimental contribuem para renovar a linguagem cinematográfica e propor desafios à consciência e ao imaginário audiovisual.

Datas: 02/07, 09/07, 16/07, 23/07.
Período: 08-12h. Quinta pela manhã, durante 4 semanas.

Professor: Polyanna Morgana é artista plástica e professora universitária. Atua nas áreas de performance, videoarte, instalação, intervenção urbana e desenho. É mestre em Artes pela Universidade de Brasília, onde também lecionou entre os anos de 2006-2008.

Fase 2 – novembro/dezembro

Módulo 5 – Cinema Clássico: busca entender como se formou a tradição clássica hollywoodiana e de outros países. Que aspectos ideológicos e de linguagem formataram esta tradição? O Cinema clássico ao redor do mundo: Howard Hawks nos EUA, Yasujiro Ozu no Japão, Jean Renoir na França, entre muitos outros. Gêneros clássicos: faroeste, filme noir, melodrama.

Seis aulas. Um mês e meio de duração.

Módulo 6 – Cinema Moderno: a partir do neo-realismo italiano nos anos 40 e 50, o cinema dos anos 60 reinventa as vanguardas e radicaliza padrões estéticos e ideológicos precedentes. As “novas ondas”, chefiadas pelos franceses (Godard, Truffaut, Resnais), percorrem o mundo: Brasil (Glauber Rocha, Sganzerla), Itália (Fellini, Antonioni), Alemanha (Herzog, Wenders), entre outros.

Seis aulas. Um mês e meio de duração.

Módulo 7 – Documentário Contemporâneo: as radicais transformações que o formato documental passou através dos anos e sua atual tendência a questionar o formato “clássico” e descobrir formas inusitadas de reavaliar o conceito de “documentar”.

Quatro aulas. Um mês de duração.

Módulo 8 – Cinema de Brasília: o percurso da linguagem cinematográfica na cidade, desde os primórdios até a bem-sucedida configuração como “pólo de cinema” e a criativa produção atual.

Quatro aulas. Um mês de duração.